terça-feira, 25 de maio de 2010


ALGUMAS DAS MELHORES PÁGINAS DA HISTÓRIA DO MUNDO

(Dedico este texto à memória do meu pai, António Gomes de Almeida,
com quem aprendi a caminhar em direcção à liberdade).


«A vida está sempre à beira do desastre»
(Salk)


Tal como há quem escreva para combater a morte, também há quem escreva para suportar melhor a vida. Tal como há quem escreva para viver, também há quem viva simplesmente para escrever. Tal como há quem escreva para preencher a falta ou o excesso de realidade, também há quem escreva simplesmente para não enlouquecer. Esta é, aliás uma ideia muito recorrente na história do pensamento ocidental desde as origens da inquietante história da humanidade. É por esta e por outras razões que não nos faltam exemplos de autores que viveram apenas para conseguir escrever algumas das melhores páginas da história do mundo.

Algumas dessas melhores páginas da história do mundo, terão sido escritas, porventura, por escritores (poetas, filósofos, romancistas, dramaturgos, etc), tão diversos como; Platão, Sófocles, Goethe, Kafka, Freud, Heidegger, Kant, Voltaire, Nietzsche, Tolstoi, Dostoevski, Borges, Rilke, Artaud, Beckett, Robert Walser, Thomas Man, Musil, Ballard, Blake, Rimbaud, Baudelaire, Blumenberg, Hannah Arendt, Deleuze, Foucault, Sarah Kane, Blanchot, Hermann Broch, Roberto Calasso, Ernest Junger, Bataille, Enzensberger, Agamben, Benjamin, Nancy, Zizek, George Steiner, isto só para referir alguns dos mais inquietantes trapezistas da velha história do saber ocidental (a lista, essa, seria verdadeiramente interminável).

Ou seja, assim como há quem escreva para combater a morte, também há quem escreva simplesmente para não morrer. Assim como há quem escreva para combater a vida, também há quem escreva simplesmente para aprender a viver. O que representa uma outra forma de não nos deixarmos abater pelas misteriosas forças do saber (do saber enquanto forma de poder).
Na prática, estes terão sido, porventura, alguns dos muitos “pensadores” que escreveram para apertar a garganta do leitor. Estes terão sido alguns dos autores que escreveram para apertar o pescoço de quem gosta de ler. Estes terão sido alguns dos “escritores” que escreveram como quem atira uma garrafa ao mar, quase como se precisassem de respirar o perfume do frasco que se encontra fora do círculo do declínio das palavras. No fundo, estes terão escrito como quem precisa de se salvar do naufrágio da escrita maldita de não se poder existir sem escrever, pelo menos, uma página de rascunhos por dia.

Estes terão sido, ainda, porventura, alguns dos que escreveram para aprender a fugir. A fugir de algo ou de alguma coisa. Já que aprender a fugir, não é apenas uma forma de nos retirarmos do mundo, mas também uma forma de nos libertarmos das forças que nos oprimem ou que simplesmente nos impedem de viver. Nesta perspectiva, Ts`ui Pên, esse poeta xadrezista que tudo abandonou para compor um livro ou um labirinto, terá dito a certa altura da sua vida: «Retiro-me do mundo para escrever um livro», ou retiro-me do mundo para «construir um labirinto (rigorosamente infinito), renunciando assim aos prazeres da opressão, e enclausurando-se definitivamente durante treze anos no Pavilhão da Límpida Solidão, escrevia Jorge Luís Borges no seu famoso Jardim dos Caminhos que se Bifurcam.

Neste caso, nos caminhos que se bifurcam nas páginas 80 e 81 do livro «Ficções», traduzido pela Editorial Teorema, numa edição organizada, se não estou em erro, por Eduardo Prado Coelho, esse autor que escreveu «Tudo o que não escrevi». Terá ele escrito tudo aquilo que não escreveu?
Afinal, o que é a escrita, senão uma outra forma de nos apoderarmos das palavras que ainda não foram pensadas, ditas e escritas pela própria mão do autor que as escreve. Mas, retomando a ideia anterior, diríamos que, se é verdade que há escritores que escrevem para não enlouquecer. Se é verdade que há escritores que escrevem para combater a morte ou para não morrer. Se é verdade que há escritores que escrevem apenas para aprender a viver, também há outros que aprendem apenas a dar  murros no crânio como forma de aprender a escrever (a aprendizagem da escrita do livro é por isso uma coisa muito estranha).

Se tudo isto é verdade, também não é menos verdade, que há escritores que escrevem, apenas, para se entreter e para entreterem todos aqueles que os lêem. E outros ainda, que escrevem simplesmente para ganhar prémios, honrarias, títulos, etc. O que é também uma outra forma de escrever. A verdade é que por falta de espaço e de tempo também, neste momento não vou conseguir escrever muita coisa sobre cada um destes autores. Lá virá o dia em que tentarei escrever alguma coisa sobre cada um deles. É que, agora, tenho uma enorme lista de livros sobre os quais tenho necessariamente que pensar, antes de os poder continuar a devorar.

Aliás, neste momento, devoro as últimas páginas do livro de um grande pensador, que se «inclina para o ensaio como forma de aproximação ao real». Esse pensador é um grande escritor de livros de ensaios. Esse grande pensador chama-se José Bragança de Miranda. O que significa, que nem só de grandes pensadores estrangeiros se faz a grande história da literatura do mundo. Este, pelo menos, escreve como quem caminha de costas voltadas para o céu. Escreve como quem escava um buraco na pele. Como quem traça um edifício no ar. Como quem pensa com os dentes cravados no chão. Como quem desenha as palavras na boca. Como quem anda sem algemas nas mãos. Como quem corre sem argolas nos pés.

Este grande senhor pertence à extraordinária linhagem daqueles pensadores que aprenderam a "amassar" o pensamento com as mãos e com dentes, ajudando-nos assim a baralhar a vida e a confundir as sua forças, antes que estas sejam trespassadas com a ajuda da flecha das palavras, quase como quem bate com a cabeça num vidro que parte. Só assim aprenderemos a viver para que um dia sejamos todos apenas rodeados de flores…



terça-feira, 11 de maio de 2010



 O RETRATO DO POETA REVOLTADO

(work in progress de Eusébio Almeida)

        
      Luís Pacheco                         Hanish Bali                                Prado Coelho
                                      
                                                                                                                                      
  com uma faca bem afiada na mão
rasgo as páginas de um livro
que pertence ao poeta Herberto Helder
mas o poeta não gosta da faca bem afiada
por isso foge com o livro de poemas rasgado debaixo do braço

na verdade o poeta não é uma máquina qualquer
é apenas uma espécie de máquina de escrever
viciado na magia das palavras
 quase como se fosse um libidinoso
devorador de livros inúteis

mas o poeta não é uma máquina de escrever
é apenas uma máquina que escreve poemas com as mãos
antes que estas lhe permitam cravar os dentes bem afiados
no ventre da terra depois deste traçar um círculo no chão
com a ponta dos pés a fim de determinar o património
genético das coisas

por isso o poeta é uma máquina que escreve
não apenas com os dedos
mas também com o suor que escorre da saliva da boca
enquanto esta se deleita com as letras da música
soletrada no silêncio do arquivo das palavras
que o poeta desconhece

em nome da liberdade das palavras
o poeta não escreve apenas sobre a memória das coisas
mas também sobre a magia daquilo que não serve para nada
por isso é que o poema
tal como o poeta
não consegue parar de escrever
não por ser uma máquina
mas por ser um poeta que escreve
com a ponta dos dedos a doer

agora o poeta vai dormir...
 mas os poetas também dormem?
não, os poetas não dormem
adormecem apenas de cansaço
tal como as palavras que descansam no colo
do leitor de livro fechado na mão

é de livro fechado  na mão
que nascem os poemas que não sabem ao suor do poeta
mas apenas à saliva das palavras
que deslizam do ventre e dos lábios carnudos da terra

a terra a chorar pela morte do poema que surge do suor
dos dedos cansados do poeta
que sangra perante o poema que escreve

...não liguem, porque o poeta está cansado
tal como o poema que acaba de escrever
até que apareça a última palavra antes da última palavra
para que o poema consiga finalmente nascer

bom dia, volto já...
dizia o letreiro pendurado na porta do quarto
do poeta enquanto este fingia que dormia

de facto os poetas não dormem
adormecem apenas de cansaço

tal como a maioria dos livros
  tal como a minoria dos homens



domingo, 25 de abril de 2010


VÍDEOS DE EUSÉBIO ALMEIDA EM EXIBIÇÃO NA CINEMATECA PORTUGUESA, E NO CENTRO CULTURAL DE BELÉM/MUSEU DA COLECÇÃO BERARDO.

Os vídeos "Emoção Voluptuosa", e "Moeda" de Eusébio Almeida serão exibidos na Cinemateca Portuguesa (entre os dias 26 e 30 de Abril de 2010), e no Centro Cultural de Belém/Museu da Colecção Berardo (dia 30 de Abril), no âmbito do  Ciclo de Cinema, e do Colóquio Internacional: "Imagem e Pensamento" em torno da vida e obra de Klossowski.
Para consultar o Programa: http://www.cecl.com.pt/actividades/actividades-em-curso/124-ciclo-imagem-e-pensamento-ii-pierre-klossowski-e-os-poderes-da-imagem

 


ARTE, FILOSOFIA E CHOCOLATES!

CHOCOLATES, ARTE E FILOSOFIA!


(Notas sobre a teoria do baloiço, e os malabaristas da cultura ocidental).


«Active Evil is better than passive Good».
                                   (William Blake)


Os livros de um filósofo desconhecido colados na parede do quarto. Os quadros desenhados na moldura rugosa do chão. Os dedos apoiados na face negra de uma escultura grega quase nua. As planícies a entrar pela janela do umbigo (essa fonte inesgotável de prazer). E tudo são pretextos para continuar a pensar na gramática do plano demasiado inclinado das palavras. De resto, as palavras só querem provocar a voz do tal filósofo desconhecido, que parece estar a desaparecer juntamente com o brilho dos sapatos. A verdade é que os sapatos do filósofo ainda não aprenderam a andar. Resta-lhes, por isso, começar a pensar.

Aliás, pensar é como respirar o ar puro da montanha prestes a ruir. Pensar é como dar um mergulho nos limites da geometria quase cega do oceano pacífico, onde te imagino vestida de salmão. Pensar é como atravessar o deserto da cultura ocidental a pedalar em cima de uma bicicleta sem motor. É como idealizar o mundo virado de pernas para o ar. Pensar é como saborear uma barra de chocolate. Pensar é parar de comer. É continuar a correr. É resistir à sede, à fome, ao frio, ao desespero e ao legítimo desejo de não querer continuar a viver. É matar a fome com rodelas de limão. É subir sem cair para voltar a descer. Não, não sou filósofo, nem gostaria de o ser. Os filósofos matam as ideias antes delas ganharem vida própria. Também não sou pugilista. Nem poeta. Nem cantor. Talvez seja apenas um simples acrobata distraído em cima de uma placa giratória prestes a partir.

É a partir do chão que recomeço a desenhar a dança maliciosa do duplo retrato do mundo onde existe o plano inclinado da teoria do baloiço. A teoria do baloiço é aquela que nos permite escorregar em cima dos sapatos brilhantes do filósofo desconhecido. Os sapatos a cair. A cair do ar. O ar com que respiramos o sabor da terra. A terra a voar por cima das nossas próprias cabeças (onde tudo parece estar demasiado inclinado para o acidente). Tal como um malabarista a sentir o desespero da próxima queda. Tal como Godot à espera de qualquer coisa, de que um dia acabará, finalmente, por se fartar de esperar.

É ainda da teoria do baloiço que estamos a falar. Ou da teoria do malabarista que sobe e que desce sem parar. Subir ou descer, neste caso, tanto faz, desde que se consiga encontrar alguma água na geometria, quase plana, do deserto da filosofia (onde não deveriam existir territórios proibidos). Não, não sou filósofo, nem gostaria de o ser. Os filósofos são uma espécie de vendedores ambulantes à beira do desespero. Desesperam, porque o mundo deixou de ser pensado por eles, e pela fatídica «filosofia analítica», que tantos estragos causou à tão famigerada cultura ocidental.

A verdade, porém, é que o mundo não precisa de filosofia, nem de filósofos para nada. A filosofia é que precisa do baloiço do mundo para poder existir. Para poder existir melhor a filosofia precisa é de entrar dentro da cabeça criativa de um qualquer jogador de corridas virtuais, desses que vivem agarrados à obsessão do poder interactivo das imagens. Das imagens com que se podem simular os contornos violentos do corpo em cima da partitura visual de um qualquer ecrã. O ecrã, «essa forma iluminada de resgate», que nos pode ajudar a dar saltos mortais em direcção aos inquietantes abismos do mundo (essa máquina misteriosa que sempre nos ajudou a pensar melhor). Mas, pensar melhor, não é nada mais nada menos, do que aprender a fugir sem qualquer tipo de filosofia. O que significa que é preciso aprender a matar todas as velhas teorias (inventar novas teorias de bolso), já que as velhas teorias podem matar o pensamento. Podem matá-lo porque este parece continuar demasiado ligado a uma espécie de «masturbação de grilos impotentes», diz-nos Eduardo Prado Coelho, em Tudo o que não escreveu (tudo o que não escreveu sobre o equilíbrio instável do mundo).

Mas, pensar e escrever é isso mesmo. É “procurar novas armas” (é agir) com as quais nos possamos defender dos perigos das inúmeras tempestades da vida. Porque a verdade é que nunca estamos demasiado preparados para nada, muito menos para pensar, e muito menos ainda para sentir . Para sentir o prazer de desenhar um circulo com a ponta dos dedos dos pés enterrados na areia molhada do mar. Tal como uma criança a sentir o prazer de moldar a plasticina com as mãos. As mãos enfiadas no barro até este ganhar a forma de uma pequenina parte da grande escultura do mundo. Esta é a magia de aprender a pensar a partir da enorme fragilidade das mãos. Das mãos e dos pés (eis o contributo da verdadeira fisiologia do corpo em movimento ou do movimento do corpo).

De facto, é tão bom poder pensar a partir da metáfora das mãos, dizia Deleuze (e dos pés, e da boca, e dos lábios, e da pele, e da carne), tal como uma criança a sentir o prazer de experimentar o barro a deslizar por entre os dedos acabados de limpar. Tal como Álvaro de Campos a experimentar o sabor do chocolate das palavras com que escrevia ao dizer; «Come chocolates, pequena! Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates». Agora começo a perceber, só os gulosos é que sabem viver. Só eles é que sabem viver bem longe das inúmeras tempestades de areia que continuam a existir no deserto do crânio daqueles que nunca aprenderam a pensar com as mãos, os dedos, a boca, a pele, o corpo...a fisiologia da carne! No fundo, no fundo,  não há programas que nos salvem...!

ARTES EM PARTES NET-ART-ACTIVISMO    3 PARTES DA ARTE
EM 3 ARTES EM PARTES....LAB. 2009/10 (Porto/Barcelona).


sábado, 6 de março de 2010


O MUNDO É UM CAMPO DE BATALHA

«A morte é uma puta»
(Hemingway).

 

Corpos a comer
a beber
a dormir
a sonhar
a viver
e tantos outros corpos a morrer…!


A utopia dos corpos a correr para bem longe do Médio Oriente, onde se encontra esse enorme barril de pólvora que o Ocidente ajudou a criar. As mãos das crianças a escavar um buraco no ventre da terra, quase como se esse ainda fosse o único sítio onde elas se pudessem esconder. O ranho a escorrer do nariz (essa máquina que deixou de respirar). Os olhos pendurados na fragilidade do horizonte do arame farpado, quase como se os velhos campos de concentração ainda permanecessem activos no século XXI, e ninguém fizesse rigorosamente nada para os impedir de crescer.

Os corpos, esses, continuam parecidos com os esqueletos de vidro. O vidro é uma das principais propriedades das máquinas de guerra. As máquinas de guerra são as piores metáforas do amor. Aliás, foi em nome do amor que se criaram algumas das maiores fábricas de armamento, que não param de produzir sofrimento enquanto satisfazem os caprichos e as encomendas dos grandes senhores (patetas) do mundo. As lágrimas, essas, continuam a escorrer pelo rosto de milhões e milhões de refugiados enquanto o sangue continua a fluir em cima dos tratados de paz. A euforia a dominar as grandes cadeias televisivas. Os ecrãs a mostrar os braços levantados no ar. Os corpos estendidos no chão, e os jornais a vender as imagens da morte.

É verdade que os corpos continuam estendidos no chão, para que um dia os homens ponham fim à loucura da guerra, antes que sejamos todos transformados em meros pedaços de pedra (sangue, ranho, fezes e urina acumulados no lugar transitório do ser). Cidades completamente esventradas, paralisadas, penetradas pelos braços metálicos dos mísseis de longo alcance. Casas partidas, furadas, desmembradas, abandonadas, reduzidas a um montão de lixo. Carros de luxo transformados em pasta de papel. Bombas cruzadas a explodir junto ao inquietante “Muro das Lamentações”.

Estas foram algumas das «máquinas de guerra» que entretanto ajudamos a criar, e que parecem servir apenas para alimentar as paranóias de um qualquer deus, que se passeia, tranquilo, de boina na mão e cachimbo na boca à beira do mar vermelho (cego, surdo e mudo). Ao longe, no meio das ervas daninhas, os corpos continuam amontoados à beira da estrada. O dinheiro continua a circular (no ar, em terra ou no mar). As teias do capitalismo selvagem continuam gloriosas (em qualquer parte do mundo). Os políticos continuam inactivos (o terrorismo não pára). Faltam-nos as palavras certas. Faltam-nos certas palavras para que consigamos descrever as políticas assassinas do mundo dito «civilizado». A verdade, é que os deuses e os padres não param de sorrir à custa daqueles que tem ajudado a assassinar.

Sentados à frente do computador, com os brinquedos da guerra virtual na mão, os grandes senhores do mundo bombardeiam as cidades como se elas fossem autênticas cidades de cartão. Bombardeiam as pessoas como se elas fossem meras personagens de plástico. Esses ratos selvagens imaginam as cidades de cartão! Imaginam as pessoas de plástico! Como é que conseguem imaginar a morte como se ela fosse de plástico? Como é que conseguem imaginar as cidades como se elas fossem de cartão? Como é que ainda conseguem viver? Como é que conseguem gerir os seus pequenos (grandes) horrores interiores?

Para Paul Celan; «a morte era uma flor». Para Hemingway; «a morte era uma puta». Para mim a morte é uma grande assassina. Mas, um dia teremos que vencer a morte, para que a morte nos deixe de vencer a nós. A verdade, porém, é que isto de tentar dar vida a um texto, é como tentar dar vida a um campo de concentração onde vivem milhares de refugiados.

De facto, escrever, é como viver no solo firme da grande prisão do mundo, onde dormir deitado é o símbolo, não da vitória, mas da derrota. Da derrota de deus, do Papa, e de todos os políticos assassinos (porque os há, e muitos, convém não esquecer…). Será que o tribunal internacional é de ficção? Se é de ficção, convém que a «ficção nos liberte do cansaço» da guerra, diria Kafka, em nome, não só dos que morrem, mas também dos que ainda vivem. Para que um dia, possamos dizer; os deuses desceram à terra onde vivem finalmente em paz junto dos humanos.

sábado, 2 de janeiro de 2010



A ESTÉTICA DO SILÊNCIO DOS CORPOS QUE FALAM











Eusébio Almeida, Caldas Late Night, ESAD.








 O corpo é uma máquina de guerra


O corpo contemporâneo está a ser cada vez mais seduzido, assediado, atraído, penetrado, mobilizado, requisitado quer pelos gestos demasiado afrodísiacos de um qualquer «teatro da crueldade» (Artaud), quer pelas gulosices de um qualquer banquete anti-platónico de semiologia urbana repleto de simulacros alucinotécnicos capazes de transformar esta máquina processual global (o corpo) numa espécie de plataforma interactiva  da ordem das máquinas de guerra. Ou seja, na prática, o corpo é uma máquina de guerra da ordem da  «álgebra das necessidades» de que falava W.Burroughs em «Naked Lunch», a propósito da liberdade «de fazer qualquer coisa para satisfazer uma espécie de necessidade total»1.

Se, por um lado, esta fórmula básica da dependência decorrente da leitura da obra de Burroughs nos sugere a «necessidade» que temos de nos ligar constantemente a alguém ou a alguma coisa, por outro lado, também nos parece interpelar sobre os perigos que podem existir numa espécie de «ligação total» (existem ligações totais?), a ponto destas, se existirem, poderem comportar os inúmeros riscos e fragilidades da intimidade de qualquer ligação, já que esta se pode desfazer a qualquer momento, provocando assim o medo da desligação, da ruptura, do colapso, e da interminável quebra de laços.

Dito de outra forma, diríamos que, se existe a possibilidade de aparentemente nos ligarmos e desligarmos a alguém  ou a alguma coisa com tanta “facilidade” como aquela com que acabámos de escrever estas palavras é porque a fragilidade das palavras com que pensámos sobre aquilo que acabámos de escrever não nos parece deixar qualquer tipo de dúvida em relação à enorme fragilidade do «mundo» em que vivemos ou em que somos “obrigados” a viver (neste preciso momento em que estamos a escrever).

 Mas se tudo isto pode acontecer, mesmo no meio do silêncio das palavras de alguém que não consegue dizer o que pensa, de forma tão elucidativa, como pensou Herberto Helder ao escrever; «Eu procuro dizer sempre como tudo é outra coisa». Se tudo isto que nós acabámos de escrever a partir das imagens deste corpo pode ser outra coisa, é porque tudo na vida pode ser realmente outra coisa. Até a problemática da imagem da violência dos corpos ou das máquinas de guerra pode ser de facto outra coisa. Apesar desta tese nos poder proporcionar algum consolo, a ponto de nos transportar para o universo demasiado fictício das «cruéis paixões da libertinagem» de Sade, isso não nos deve servir de pretexto para parar de pensar na possibilidade de contribuir para a existência da gestão calculada de mais e mais mecanismos de «suspensão da violência» (em contextos reais e/ou virtuais).

Não que queiramos experimentar o arco dramático da “visão futurista” do «Método Ludovico» de Kubrick, a partir da sua «Laranja mecânica» (baseado no romance de Anthony Burgess) ao querer transformar o trajecto do jovem delinquente em respeitável cidadão, depois dele ter sido preso por (agressão, violação, homicídio, etc). Não que queiramos experimentar esse programa, porque por mais bem intencionados que sejam os programas (e este era uma programa muito bem intencionado) no fim, todos ele acabam por falhar, e este, como todos os outros, não conseguiu escapar à lógica do seu próprio fracasso. Mas como esse não é o objectivo deste trabalho, compete-nos pelo menos perceber que em matéria de «violência» e de «erotismo», «não devíamos ter que dar ao mundo das possibilidades o que apenas a ficção nos devia permitir conceber», diz-nos Bataille, a propósito da obra de Sade, no seu livro Erotismo 2, o que o levou ainda a escrever acerca das gulosices afrodisíacas de Sade, ao dizer que «todo o erotismo é violento», ou que «a violência é a alma do erotismo»3.

Aliás, no caso da obra de Sade4, o “erotismo” (ficção erótica), é de tal forma violento, que Jules Janin, escreveu na Revue de Paris (1834); «Nessa obra apenas existem cadáveres ensanguentados, filhos arrancados aos braços das mães, jovens estrangulados no final das orgias, taças cheias de sangue e de vinho, torturas inauditas. Acendem-se fogueiras, levantam-se forcas, cortam-se cabeças, esfolam-se homens vivos, clama-se, pragueja-se, blasfema-se, arrancam-se corações dos peitos, e tudo isto a cada página, a cada linha, sempre. Oh! Que infatigável celerado! No seu primeiro livro (Justine ou Nouvelle Justine), mostra-nos uma pobre mulher perdida, destruída, sem ninguém, esmagada por toda a espécie de infortúnios, conduzida por monstros, de subterrâneo em subterrâneo, de cemitério em cemitério, batida, ferida, devorada, aviltada, esmagada.

Depois do autor (Sade) nos descrever todos os crimes possíveis e imaginários, quando já está saturado de incestos e de monstruosidades, quando está perante nós, resfolgando sobre os cadáveres que apunhalou e violou, quando já não há igreja que não tenha sido profanada, uma criança que não tenha sido imolada à sua raiva, um pensamento moral sobre o qual não tenha lançado as imundícies do seu próprio pensamento e das suas palavras, nessa altura este homem finalmente detém-se, mas para se olhar, para sorrir de si próprio, e não ter qualquer medo de si», e dessa infernal máquina de guerra chamada corpo.

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1 Burroughs, William – Naked Lunch, Grove (1992), cap. xi. Tradução Portuguesa Burroughs, William – Festim nu, Lisboa, Editorial Noticias (2002).

2 Bataille, Georges – Erotismo, Lisboa, (2004), p.154.
Sobre algumas das gulosices afrodisíacas de Sade, Bataille escreveu, citando Maurice Blanchot, a partir do seu Lautréamont e Sade, que; «Todos os grandes libertinos, que só viveram para o prazer, são apenas grandes porque aniquilaram neles qualquer capacidade de (amar). Por isso, se entregaram a “horríveis anomalias” (muitas delas fictícias) exactamente porque a mediocridade das volúpias normais lhes não bastavam. Mas, não significa que sejam insensíveis; antes pretendem gozar uma parte da sua insensibilidade, tornando-se, por isso, às vezes, demasiado ferozes. A crueldade, é apenas a sua autonegação, levada tão longe que se transforma em explosão destruidora. («A insensibilidade torna-se o tremor e o temor que agita todo o meu ser, dizia Sade»); a alma passa, assim, a uma espécie de apatia que se transforma em prazeres cem mil vezes mais divinos do que aqueles que as fraquezas (do dia a dia) nos podem oferecer». Bataille, Georges, Ibidem, p.152. Ou então, Blanchot, Maurice - Lautréamont et Sade, Ed. Minuit (1949), pp. 220-221.

3 Bataille, Georges, Ibidem, p.170.

4 Numa outra passagem, Bataille diz-nos, ainda, que «o homem soberano de Sade, não tem soberania real. É uma personagem de ficção, cujo poder não está limitado por qualquer obrigação (moral ou de qualquer outra espécie). Não deve qualquer lealdade, como a deveria esse outro soberano em relação àqueles que lhe deram o poder. Livre perante os outros, torna-se vítima da sua própria soberania (virtual)». Batailhe, Georges, Ibidem, p.153.


Eusébio Almeida a caminho do deserto...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009



UTOPIAN SCREEN
de Filipa César


Projecto de Filipa César, Allee der Kosmonauten, 2007, Berlin (e exposição 2x8).


Para criar uma imagem basta escrever uma palavra numa página qualquer. Qualquer palavra pode ser uma nova imagem da história do mundo, desde que o mundo não seja uma página em branco ou que a brancura das frases não sejam um mero refúgio e os homens não se transformem apenas em pedaços de pedra. A verdade é que as pedras são imagens invertidas depois de reflectidas no espelho da cidade que acabo de percorrer. A cidade, neste caso, está no centro das palavras que acabo de escrever. Vou acreditar que as palavras que acabo de escrever não existem ou que existem apenas dentro de uma espécie de narrativa virtual. O real dentro do virtual. O virtual dentro do real (a confusão é total).

A encenação especulativa esgota-se aqui (só conheço o que conheço, o resto não interessa para nada). A verdade, porém, é que o pulmão da escrita ainda é o mundo (que carece de provas para poder existir à margem da ficção). Por isso é que somos uma parte daquilo que negamos. Aliás, negamos a existência para poder existir melhor. A melhor parte do mundo é sabermos que a realidade pode ser um espelho demasiado enganador. O problema é que os espelhos são apenas simulações aproximadas do desejo de possuir uma série de orgasmos visuais. Os orgasmos visuais, esses, são experiências de mera sedução. Seduzir é ser fiel a uma máquina (mesmo que de ficção).

No fundo, sei que preciso pelo menos de uma imagem. Agarro na mochila, e fujo com essa imagem dentro do bolso. Embrulho-me nas costas da imagem. Só me interessam as costas da imagem. Fujo com uma imagem dentro do bolso, só assim é que consigo resgatar a primeira imagem do mundo. Só assim é que consigo acreditar que ainda é possível partir de novo. Parte da viagem nasce do consolo de saber que não tenho os pés encostados às costas, e que as costas não pertencem à geografia instável do crânio, e que o crânio é uma máquina bem diferente da máquina com que fotografo os passos e os gestos que me fazem percorrer esta cidade (o mundo é uma parte do estômago).

Basta colocar uma venda nos olhos para acreditar naquilo que acabo de escrever. Para acreditar no futuro basta tomar um comprimido (verde-amarelo-azul-laranja-roxo), neste caso, tanto faz, desde que entretanto se cuspam para fora do instante a transformar pela dor instantânea do devir. Experimentar-cair-levantar (tudo em nome da grande personagem do século). A grande personagem do século é o perigo do eterno caminhar. Do não ter de chegar. Eu sei que perdemos a bússola, que perdemos o mapa, mas a cabeça ainda é uma ponte que nos pode ligar à outra margem da cidade. Ainda nos resta acreditar que a vida não se resume a um simples «negativo do mundo», ou seja, neste caso, não basta procurar uma simples bolha de protecção. É preciso  é acreditar que ainda é possível inventar um novo paraíso (simular é preciso).

Nós sabemos que a máquina não pára de ganir. Que as imagens não param de sair (de circular, de andar, de vingar, de matar). Não vale a pena parar a máquina. É preciso é não abandonar o barco. É preciso é abrandar o passo. Não caminhar tanto. Respirar um pouco de ar puro. Ouvir uma música de Miles Davis. Um poema de Rimbaud. Uma história de Sarah Kane, etc. Ou então escutar apenas o silêncio de uma imagem que arde sem parar. A mochila, essa, continua às costas. Amanhã regresso de Nova Iorque. Depois vou para Berlim. Entretanto regresso novamente a Lisboa. O comboio, o barco, o avião partem todos às 6 da manhã.

Lembrar ou não lembrar, já pouco importa. Agora preciso é de abrir os olhos e lentamente erguer a cabeça em direcção ao tecto deste avião (olhar para este tecto é como tentar fotografar as pessoas que não consigo enquadrar). Tenho a cabeça a arder só de imaginar que não posso voltar as costas ao futuro. O melhor é continuar a fugir! Será o futuro apenas uma máquina de fazer regressar o presente ao passado? Enfim, a minha sorte é que as imagens não morrem, e o futuro está prestes a chegar. Para isso basta carregar no botão e o mundo jamais deixará de existir. O mundo jamais deixará de existir?

Há imagens que não servem para nada. Há outras que são eternas. Há animais que vivem mais do que os homens. Há pessoas que nunca chegam a nascer. Há deuses do tamanho das migalhas. Há pessoas que desejam morrer. Há viagens que nos transformam a vida. O avião está prestes a partir. O melhor é parar de pensar, caso contrário, já não consigo fugir desta viagem que nos pode matar…

Nota: Texto apresentado (com ligeiras alterações) no catálogo do projecto colectivo 2x8, entretanto realizado no Museu António Duarte (Caldas da Rainha), sob a curadoria de David Etxeberria, e que integrou trabalhos de Alexandra Marcos (Escultura), Susana Rosa (Pintura), David Etxeberria, Filipa César e Susana Anágua (Vídeo Arte),  Eusébio Almeida (Instalação), e fotografia de Sofia Martins.