domingo, 25 de abril de 2010


VÍDEOS DE EUSÉBIO ALMEIDA EM EXIBIÇÃO NA CINEMATECA PORTUGUESA, E NO CENTRO CULTURAL DE BELÉM/MUSEU DA COLECÇÃO BERARDO.

Os vídeos "Emoção Voluptuosa", e "Moeda" de Eusébio Almeida serão exibidos na Cinemateca Portuguesa (entre os dias 26 e 30 de Abril de 2010), e no Centro Cultural de Belém/Museu da Colecção Berardo (dia 30 de Abril), no âmbito do  Ciclo de Cinema, e do Colóquio Internacional: "Imagem e Pensamento" em torno da vida e obra de Klossowski.
Para consultar o Programa: http://www.cecl.com.pt/actividades/actividades-em-curso/124-ciclo-imagem-e-pensamento-ii-pierre-klossowski-e-os-poderes-da-imagem

 


ARTE, FILOSOFIA E CHOCOLATES!

CHOCOLATES, ARTE E FILOSOFIA!


(Notas sobre a teoria do baloiço, e os malabaristas da cultura ocidental).


«Active Evil is better than passive Good».
                                   (William Blake)


Os livros de um filósofo desconhecido colados na parede do quarto. Os quadros desenhados na moldura rugosa do chão. Os dedos apoiados na face negra de uma escultura grega quase nua. As planícies a entrar pela janela do umbigo (essa fonte inesgotável de prazer). E tudo são pretextos para continuar a pensar na gramática do plano demasiado inclinado das palavras. De resto, as palavras só querem provocar a voz do tal filósofo desconhecido, que parece estar a desaparecer juntamente com o brilho dos sapatos. A verdade é que os sapatos do filósofo ainda não aprenderam a andar. Resta-lhes, por isso, começar a pensar.

Aliás, pensar é como respirar o ar puro da montanha prestes a ruir. Pensar é como dar um mergulho nos limites da geometria quase cega do oceano pacífico, onde te imagino vestida de salmão. Pensar é como atravessar o deserto da cultura ocidental a pedalar em cima de uma bicicleta sem motor. É como idealizar o mundo virado de pernas para o ar. Pensar é como saborear uma barra de chocolate. Pensar é parar de comer. É continuar a correr. É resistir à sede, à fome, ao frio, ao desespero e ao legítimo desejo de não querer continuar a viver. É matar a fome com rodelas de limão. É subir sem cair para voltar a descer. Não, não sou filósofo, nem gostaria de o ser. Os filósofos matam as ideias antes delas ganharem vida própria. Também não sou pugilista. Nem poeta. Nem cantor. Talvez seja apenas um simples acrobata distraído em cima de uma placa giratória prestes a partir.

É a partir do chão que recomeço a desenhar a dança maliciosa do duplo retrato do mundo onde existe o plano inclinado da teoria do baloiço. A teoria do baloiço é aquela que nos permite escorregar em cima dos sapatos brilhantes do filósofo desconhecido. Os sapatos a cair. A cair do ar. O ar com que respiramos o sabor da terra. A terra a voar por cima das nossas próprias cabeças (onde tudo parece estar demasiado inclinado para o acidente). Tal como um malabarista a sentir o desespero da próxima queda. Tal como Godot à espera de qualquer coisa, de que um dia acabará, finalmente, por se fartar de esperar.

É ainda da teoria do baloiço que estamos a falar. Ou da teoria do malabarista que sobe e que desce sem parar. Subir ou descer, neste caso, tanto faz, desde que se consiga encontrar alguma água na geometria, quase plana, do deserto da filosofia (onde não deveriam existir territórios proibidos). Não, não sou filósofo, nem gostaria de o ser. Os filósofos são uma espécie de vendedores ambulantes à beira do desespero. Desesperam, porque o mundo deixou de ser pensado por eles, e pela fatídica «filosofia analítica», que tantos estragos causou à tão famigerada cultura ocidental.

A verdade, porém, é que o mundo não precisa de filosofia, nem de filósofos para nada. A filosofia é que precisa do baloiço do mundo para poder existir. Para poder existir melhor a filosofia precisa é de entrar dentro da cabeça criativa de um qualquer jogador de corridas virtuais, desses que vivem agarrados à obsessão do poder interactivo das imagens. Das imagens com que se podem simular os contornos violentos do corpo em cima da partitura visual de um qualquer ecrã. O ecrã, «essa forma iluminada de resgate», que nos pode ajudar a dar saltos mortais em direcção aos inquietantes abismos do mundo (essa máquina misteriosa que sempre nos ajudou a pensar melhor). Mas, pensar melhor, não é nada mais nada menos, do que aprender a fugir sem qualquer tipo de filosofia. O que significa que é preciso aprender a matar todas as velhas teorias (inventar novas teorias de bolso), já que as velhas teorias podem matar o pensamento. Podem matá-lo porque este parece continuar demasiado ligado a uma espécie de «masturbação de grilos impotentes», diz-nos Eduardo Prado Coelho, em Tudo o que não escreveu (tudo o que não escreveu sobre o equilíbrio instável do mundo).

Mas, pensar e escrever é isso mesmo. É “procurar novas armas” (é agir) com as quais nos possamos defender dos perigos das inúmeras tempestades da vida. Porque a verdade é que nunca estamos demasiado preparados para nada, muito menos para pensar, e muito menos ainda para sentir . Para sentir o prazer de desenhar um circulo com a ponta dos dedos dos pés enterrados na areia molhada do mar. Tal como uma criança a sentir o prazer de moldar a plasticina com as mãos. As mãos enfiadas no barro até este ganhar a forma de uma pequenina parte da grande escultura do mundo. Esta é a magia de aprender a pensar a partir da enorme fragilidade das mãos. Das mãos e dos pés (eis o contributo da verdadeira fisiologia do corpo em movimento ou do movimento do corpo).

De facto, é tão bom poder pensar a partir da metáfora das mãos, dizia Deleuze (e dos pés, e da boca, e dos lábios, e da pele, e da carne), tal como uma criança a sentir o prazer de experimentar o barro a deslizar por entre os dedos acabados de limpar. Tal como Álvaro de Campos a experimentar o sabor do chocolate das palavras com que escrevia ao dizer; «Come chocolates, pequena! Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates». Agora começo a perceber, só os gulosos é que sabem viver. Só eles é que sabem viver bem longe das inúmeras tempestades de areia que continuam a existir no deserto do crânio daqueles que nunca aprenderam a pensar com as mãos, os dedos, a boca, a pele, o corpo...a fisiologia da carne! No fundo, no fundo,  não há programas que nos salvem...!

ARTES EM PARTES NET-ART-ACTIVISMO    3 PARTES DA ARTE
EM 3 ARTES EM PARTES....LAB. 2009/10 (Porto/Barcelona).


sábado, 6 de março de 2010


O MUNDO É UM CAMPO DE BATALHA

«A morte é uma puta»
(Hemingway).

 

Corpos a comer
a beber
a dormir
a sonhar
a viver
e tantos outros corpos a morrer…!


A utopia dos corpos a correr para bem longe do Médio Oriente, onde se encontra esse enorme barril de pólvora que o Ocidente ajudou a criar. As mãos das crianças a escavar um buraco no ventre da terra, quase como se esse ainda fosse o único sítio onde elas se pudessem esconder. O ranho a escorrer do nariz (essa máquina que deixou de respirar). Os olhos pendurados na fragilidade do horizonte do arame farpado, quase como se os velhos campos de concentração ainda permanecessem activos no século XXI, e ninguém fizesse rigorosamente nada para os impedir de crescer.

Os corpos, esses, continuam parecidos com os esqueletos de vidro. O vidro é uma das principais propriedades das máquinas de guerra. As máquinas de guerra são as piores metáforas do amor. Aliás, foi em nome do amor que se criaram algumas das maiores fábricas de armamento, que não param de produzir sofrimento enquanto satisfazem os caprichos e as encomendas dos grandes senhores (patetas) do mundo. As lágrimas, essas, continuam a escorrer pelo rosto de milhões e milhões de refugiados enquanto o sangue continua a fluir em cima dos tratados de paz. A euforia a dominar as grandes cadeias televisivas. Os ecrãs a mostrar os braços levantados no ar. Os corpos estendidos no chão, e os jornais a vender as imagens da morte.

É verdade que os corpos continuam estendidos no chão, para que um dia os homens ponham fim à loucura da guerra, antes que sejamos todos transformados em meros pedaços de pedra (sangue, ranho, fezes e urina acumulados no lugar transitório do ser). Cidades completamente esventradas, paralisadas, penetradas pelos braços metálicos dos mísseis de longo alcance. Casas partidas, furadas, desmembradas, abandonadas, reduzidas a um montão de lixo. Carros de luxo transformados em pasta de papel. Bombas cruzadas a explodir junto ao inquietante “Muro das Lamentações”.

Estas foram algumas das «máquinas de guerra» que entretanto ajudamos a criar, e que parecem servir apenas para alimentar as paranóias de um qualquer deus, que se passeia, tranquilo, de boina na mão e cachimbo na boca à beira do mar vermelho (cego, surdo e mudo). Ao longe, no meio das ervas daninhas, os corpos continuam amontoados à beira da estrada. O dinheiro continua a circular (no ar, em terra ou no mar). As teias do capitalismo selvagem continuam gloriosas (em qualquer parte do mundo). Os políticos continuam inactivos (o terrorismo não pára). Faltam-nos as palavras certas. Faltam-nos certas palavras para que consigamos descrever as políticas assassinas do mundo dito «civilizado». A verdade, é que os deuses e os padres não param de sorrir à custa daqueles que tem ajudado a assassinar.

Sentados à frente do computador, com os brinquedos da guerra virtual na mão, os grandes senhores do mundo bombardeiam as cidades como se elas fossem autênticas cidades de cartão. Bombardeiam as pessoas como se elas fossem meras personagens de plástico. Esses ratos selvagens imaginam as cidades de cartão! Imaginam as pessoas de plástico! Como é que conseguem imaginar a morte como se ela fosse de plástico? Como é que conseguem imaginar as cidades como se elas fossem de cartão? Como é que ainda conseguem viver? Como é que conseguem gerir os seus pequenos (grandes) horrores interiores?

Para Paul Celan; «a morte era uma flor». Para Hemingway; «a morte era uma puta». Para mim a morte é uma grande assassina. Mas, um dia teremos que vencer a morte, para que a morte nos deixe de vencer a nós. A verdade, porém, é que isto de tentar dar vida a um texto, é como tentar dar vida a um campo de concentração onde vivem milhares de refugiados.

De facto, escrever, é como viver no solo firme da grande prisão do mundo, onde dormir deitado é o símbolo, não da vitória, mas da derrota. Da derrota de deus, do Papa, e de todos os políticos assassinos (porque os há, e muitos, convém não esquecer…). Será que o tribunal internacional é de ficção? Se é de ficção, convém que a «ficção nos liberte do cansaço» da guerra, diria Kafka, em nome, não só dos que morrem, mas também dos que ainda vivem. Para que um dia, possamos dizer; os deuses desceram à terra onde vivem finalmente em paz junto dos humanos.

sábado, 2 de janeiro de 2010



A ESTÉTICA DO SILÊNCIO DOS CORPOS QUE FALAM











Eusébio Almeida, Caldas Late Night, ESAD.








 O corpo é uma máquina de guerra


O corpo contemporâneo está a ser cada vez mais seduzido, assediado, atraído, penetrado, mobilizado, requisitado quer pelos gestos demasiado afrodísiacos de um qualquer «teatro da crueldade» (Artaud), quer pelas gulosices de um qualquer banquete anti-platónico de semiologia urbana repleto de simulacros alucinotécnicos capazes de transformar esta máquina processual global (o corpo) numa espécie de plataforma interactiva  da ordem das máquinas de guerra. Ou seja, na prática, o corpo é uma máquina de guerra da ordem da  «álgebra das necessidades» de que falava W.Burroughs em «Naked Lunch», a propósito da liberdade «de fazer qualquer coisa para satisfazer uma espécie de necessidade total»1.

Se, por um lado, esta fórmula básica da dependência decorrente da leitura da obra de Burroughs nos sugere a «necessidade» que temos de nos ligar constantemente a alguém ou a alguma coisa, por outro lado, também nos parece interpelar sobre os perigos que podem existir numa espécie de «ligação total» (existem ligações totais?), a ponto destas, se existirem, poderem comportar os inúmeros riscos e fragilidades da intimidade de qualquer ligação, já que esta se pode desfazer a qualquer momento, provocando assim o medo da desligação, da ruptura, do colapso, e da interminável quebra de laços.

Dito de outra forma, diríamos que, se existe a possibilidade de aparentemente nos ligarmos e desligarmos a alguém  ou a alguma coisa com tanta “facilidade” como aquela com que acabámos de escrever estas palavras é porque a fragilidade das palavras com que pensámos sobre aquilo que acabámos de escrever não nos parece deixar qualquer tipo de dúvida em relação à enorme fragilidade do «mundo» em que vivemos ou em que somos “obrigados” a viver (neste preciso momento em que estamos a escrever).

 Mas se tudo isto pode acontecer, mesmo no meio do silêncio das palavras de alguém que não consegue dizer o que pensa, de forma tão elucidativa, como pensou Herberto Helder ao escrever; «Eu procuro dizer sempre como tudo é outra coisa». Se tudo isto que nós acabámos de escrever a partir das imagens deste corpo pode ser outra coisa, é porque tudo na vida pode ser realmente outra coisa. Até a problemática da imagem da violência dos corpos ou das máquinas de guerra pode ser de facto outra coisa. Apesar desta tese nos poder proporcionar algum consolo, a ponto de nos transportar para o universo demasiado fictício das «cruéis paixões da libertinagem» de Sade, isso não nos deve servir de pretexto para parar de pensar na possibilidade de contribuir para a existência da gestão calculada de mais e mais mecanismos de «suspensão da violência» (em contextos reais e/ou virtuais).

Não que queiramos experimentar o arco dramático da “visão futurista” do «Método Ludovico» de Kubrick, a partir da sua «Laranja mecânica» (baseado no romance de Anthony Burgess) ao querer transformar o trajecto do jovem delinquente em respeitável cidadão, depois dele ter sido preso por (agressão, violação, homicídio, etc). Não que queiramos experimentar esse programa, porque por mais bem intencionados que sejam os programas (e este era uma programa muito bem intencionado) no fim, todos ele acabam por falhar, e este, como todos os outros, não conseguiu escapar à lógica do seu próprio fracasso. Mas como esse não é o objectivo deste trabalho, compete-nos pelo menos perceber que em matéria de «violência» e de «erotismo», «não devíamos ter que dar ao mundo das possibilidades o que apenas a ficção nos devia permitir conceber», diz-nos Bataille, a propósito da obra de Sade, no seu livro Erotismo 2, o que o levou ainda a escrever acerca das gulosices afrodisíacas de Sade, ao dizer que «todo o erotismo é violento», ou que «a violência é a alma do erotismo»3.

Aliás, no caso da obra de Sade4, o “erotismo” (ficção erótica), é de tal forma violento, que Jules Janin, escreveu na Revue de Paris (1834); «Nessa obra apenas existem cadáveres ensanguentados, filhos arrancados aos braços das mães, jovens estrangulados no final das orgias, taças cheias de sangue e de vinho, torturas inauditas. Acendem-se fogueiras, levantam-se forcas, cortam-se cabeças, esfolam-se homens vivos, clama-se, pragueja-se, blasfema-se, arrancam-se corações dos peitos, e tudo isto a cada página, a cada linha, sempre. Oh! Que infatigável celerado! No seu primeiro livro (Justine ou Nouvelle Justine), mostra-nos uma pobre mulher perdida, destruída, sem ninguém, esmagada por toda a espécie de infortúnios, conduzida por monstros, de subterrâneo em subterrâneo, de cemitério em cemitério, batida, ferida, devorada, aviltada, esmagada.

Depois do autor (Sade) nos descrever todos os crimes possíveis e imaginários, quando já está saturado de incestos e de monstruosidades, quando está perante nós, resfolgando sobre os cadáveres que apunhalou e violou, quando já não há igreja que não tenha sido profanada, uma criança que não tenha sido imolada à sua raiva, um pensamento moral sobre o qual não tenha lançado as imundícies do seu próprio pensamento e das suas palavras, nessa altura este homem finalmente detém-se, mas para se olhar, para sorrir de si próprio, e não ter qualquer medo de si», e dessa infernal máquina de guerra chamada corpo.

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1 Burroughs, William – Naked Lunch, Grove (1992), cap. xi. Tradução Portuguesa Burroughs, William – Festim nu, Lisboa, Editorial Noticias (2002).

2 Bataille, Georges – Erotismo, Lisboa, (2004), p.154.
Sobre algumas das gulosices afrodisíacas de Sade, Bataille escreveu, citando Maurice Blanchot, a partir do seu Lautréamont e Sade, que; «Todos os grandes libertinos, que só viveram para o prazer, são apenas grandes porque aniquilaram neles qualquer capacidade de (amar). Por isso, se entregaram a “horríveis anomalias” (muitas delas fictícias) exactamente porque a mediocridade das volúpias normais lhes não bastavam. Mas, não significa que sejam insensíveis; antes pretendem gozar uma parte da sua insensibilidade, tornando-se, por isso, às vezes, demasiado ferozes. A crueldade, é apenas a sua autonegação, levada tão longe que se transforma em explosão destruidora. («A insensibilidade torna-se o tremor e o temor que agita todo o meu ser, dizia Sade»); a alma passa, assim, a uma espécie de apatia que se transforma em prazeres cem mil vezes mais divinos do que aqueles que as fraquezas (do dia a dia) nos podem oferecer». Bataille, Georges, Ibidem, p.152. Ou então, Blanchot, Maurice - Lautréamont et Sade, Ed. Minuit (1949), pp. 220-221.

3 Bataille, Georges, Ibidem, p.170.

4 Numa outra passagem, Bataille diz-nos, ainda, que «o homem soberano de Sade, não tem soberania real. É uma personagem de ficção, cujo poder não está limitado por qualquer obrigação (moral ou de qualquer outra espécie). Não deve qualquer lealdade, como a deveria esse outro soberano em relação àqueles que lhe deram o poder. Livre perante os outros, torna-se vítima da sua própria soberania (virtual)». Batailhe, Georges, Ibidem, p.153.


Eusébio Almeida a caminho do deserto...

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009



UTOPIAN SCREEN
de Filipa César


Projecto de Filipa César, Allee der Kosmonauten, 2007, Berlin (e exposição 2x8).


Para criar uma imagem basta escrever uma palavra numa página qualquer. Qualquer palavra pode ser uma nova imagem da história do mundo, desde que o mundo não seja uma página em branco ou que a brancura das frases não sejam um mero refúgio e os homens não se transformem apenas em pedaços de pedra. A verdade é que as pedras são imagens invertidas depois de reflectidas no espelho da cidade que acabo de percorrer. A cidade, neste caso, está no centro das palavras que acabo de escrever. Vou acreditar que as palavras que acabo de escrever não existem ou que existem apenas dentro de uma espécie de narrativa virtual. O real dentro do virtual. O virtual dentro do real (a confusão é total).

A encenação especulativa esgota-se aqui (só conheço o que conheço, o resto não interessa para nada). A verdade, porém, é que o pulmão da escrita ainda é o mundo (que carece de provas para poder existir à margem da ficção). Por isso é que somos uma parte daquilo que negamos. Aliás, negamos a existência para poder existir melhor. A melhor parte do mundo é sabermos que a realidade pode ser um espelho demasiado enganador. O problema é que os espelhos são apenas simulações aproximadas do desejo de possuir uma série de orgasmos visuais. Os orgasmos visuais, esses, são experiências de mera sedução. Seduzir é ser fiel a uma máquina (mesmo que de ficção).

No fundo, sei que preciso pelo menos de uma imagem. Agarro na mochila, e fujo com essa imagem dentro do bolso. Embrulho-me nas costas da imagem. Só me interessam as costas da imagem. Fujo com uma imagem dentro do bolso, só assim é que consigo resgatar a primeira imagem do mundo. Só assim é que consigo acreditar que ainda é possível partir de novo. Parte da viagem nasce do consolo de saber que não tenho os pés encostados às costas, e que as costas não pertencem à geografia instável do crânio, e que o crânio é uma máquina bem diferente da máquina com que fotografo os passos e os gestos que me fazem percorrer esta cidade (o mundo é uma parte do estômago).

Basta colocar uma venda nos olhos para acreditar naquilo que acabo de escrever. Para acreditar no futuro basta tomar um comprimido (verde-amarelo-azul-laranja-roxo), neste caso, tanto faz, desde que entretanto se cuspam para fora do instante a transformar pela dor instantânea do devir. Experimentar-cair-levantar (tudo em nome da grande personagem do século). A grande personagem do século é o perigo do eterno caminhar. Do não ter de chegar. Eu sei que perdemos a bússola, que perdemos o mapa, mas a cabeça ainda é uma ponte que nos pode ligar à outra margem da cidade. Ainda nos resta acreditar que a vida não se resume a um simples «negativo do mundo», ou seja, neste caso, não basta procurar uma simples bolha de protecção. É preciso  é acreditar que ainda é possível inventar um novo paraíso (simular é preciso).

Nós sabemos que a máquina não pára de ganir. Que as imagens não param de sair (de circular, de andar, de vingar, de matar). Não vale a pena parar a máquina. É preciso é não abandonar o barco. É preciso é abrandar o passo. Não caminhar tanto. Respirar um pouco de ar puro. Ouvir uma música de Miles Davis. Um poema de Rimbaud. Uma história de Sarah Kane, etc. Ou então escutar apenas o silêncio de uma imagem que arde sem parar. A mochila, essa, continua às costas. Amanhã regresso de Nova Iorque. Depois vou para Berlim. Entretanto regresso novamente a Lisboa. O comboio, o barco, o avião partem todos às 6 da manhã.

Lembrar ou não lembrar, já pouco importa. Agora preciso é de abrir os olhos e lentamente erguer a cabeça em direcção ao tecto deste avião (olhar para este tecto é como tentar fotografar as pessoas que não consigo enquadrar). Tenho a cabeça a arder só de imaginar que não posso voltar as costas ao futuro. O melhor é continuar a fugir! Será o futuro apenas uma máquina de fazer regressar o presente ao passado? Enfim, a minha sorte é que as imagens não morrem, e o futuro está prestes a chegar. Para isso basta carregar no botão e o mundo jamais deixará de existir. O mundo jamais deixará de existir?

Há imagens que não servem para nada. Há outras que são eternas. Há animais que vivem mais do que os homens. Há pessoas que nunca chegam a nascer. Há deuses do tamanho das migalhas. Há pessoas que desejam morrer. Há viagens que nos transformam a vida. O avião está prestes a partir. O melhor é parar de pensar, caso contrário, já não consigo fugir desta viagem que nos pode matar…

Nota: Texto apresentado (com ligeiras alterações) no catálogo do projecto colectivo 2x8, entretanto realizado no Museu António Duarte (Caldas da Rainha), sob a curadoria de David Etxeberria, e que integrou trabalhos de Alexandra Marcos (Escultura), Susana Rosa (Pintura), David Etxeberria, Filipa César e Susana Anágua (Vídeo Arte),  Eusébio Almeida (Instalação), e fotografia de Sofia Martins.

domingo, 8 de novembro de 2009

O TERRORISMO DAS IMAGENS PODE MATAR...
Eusébio Almeida, instalação/performance, A caverna do facebook, Plataforma revólver em punho, LAB.BOX.aRT, Porto/Barcelona, 2009/10.

«A ficção pode libertar-nos do cansaço» (Kafka).

Quase como uma espécie de oração sem palavras. Maldita é a introdução do título de um livro que eu entretanto gostaria de escrever. “O Terrorismo das imagens pode matar” seria o título do livro, quase como se quisesse adiar a violência das palavras que se apressam a sair de uma experiência vivida (pessoalmente) no dia 11 de Setembro de 2004, em Nova Iorque, e da qual não me consigo esquecer. Colisões atrás de colisões. Choques frontais. Quedas sucessivas. Vozes trémulas, convulsivas, vulcânicas. Olhares cansados, vigiados, longínquos, ameaçados. Quase agrafados ao calor da fuligem das paredes acabadas de ruir. Respirações ofegantes, quentes, soletrantes, rasteiras (quase a tocar as entranhas do reverso da imagem de uma cidade prestes a desaparecer). Entradas e saídas entupidas. Estradas bloqueadas. Vidros partidos. Telefones desligados. Corpos entalados, atirados, sacudidos para fora das janelas dos prédios a arder. E entretanto a vontade de saltar de um décimo terceiro andar. Foram muitas, aliás, as pessoas que saltaram para se conseguirem salvar.

A verdade é que perante os ataques de pânico não há rede que nos salve (o chão não nos impede de cair). Os corpos a transpirar, a tremer, a vomitar, a gritar, a sussurrar ao ouvido de deus (surdo, mudo e cego) como «o deus das pequenas coisas». A violência dos corpos violados pelas espirais sem saída. As sirenes a tocar. Impedidos de falar. As bocas a salivar. Os corpos a tremer de frio. E o medo a espreitar dentro de uma espécie de castelo de cartas, prestes a ruir. Os braços levantados a pedir. O 112 a chamar. E as vozes roucas de tanto sufocar («suor, água e sangue, lágrimas, suspiros e gritos»). Tudo parecia estar demasiado inclinado para o acidente. Até o excesso de espera podia matar.

Mais um braço levantado a pedir, e outro, e outro, e mais outro…E um rasto desmedido de suor a atravessar o nosso pensamento à medida que tentávamos perceber a distância certa que nos podia aproximar de mais uma saída qualquer. As portas, essas, continuavam todas encerradas. Os elevadores todos completamente bloqueados. Os bombeiros não paravam de gritar - STOP. STOP. STOP. Trapézios sem rede. Jogos de azar. Jogos de xadrez. Jogos sujos. Jogos de dinheiro. Sem pára-quedas à vista. Pára-quedistas involuntários. E a vida apanhada desprevenida, quase como nos filmes de Vertov. E o dinheiro sem nos conseguir salvar, e nós sem conseguirmos salvar o dinheiro, quase como se vivêssemos dentro de uma espécie de caverna global (tão viciante e cavernosa como a do facebook), ou então dentro de uma espécie de «jardim zoológico sem grades» (sádicos do tempo/acrobatas da tempestade/políticos assassinos/terroristas do acaso).

Mas, o melhor é sacudir este pensamento para bem longe. Afinal, não é só disto que eu quero falar. A verdade, porém, é que há experiências que nos podem conduzir à loucura. Este pensamento quase que dava para me enlouquecer. Será que o melhor é esquecer? Dar meia volta, dar um murro no crânio e continuar desesperadamente a correr? Maldita introdução do título de um livro tão difícil de escrever, depois de ter estado fechado num vigésimo terceiro andar completamente a arder. Tudo isto, só me faz lembrar o «4.48. Psicose» de Sarah Kane. Mas, agora, é a metáfora dos corpos caídos que me parece provocar uma vontade desmedida de escrever. Talvez em nome dos corpos deitados no chão. Talvez em nome dos corpos deitados na cama. Talvez em nome dos corpos que morreram de pé. Talvez em nome dos corpos resgatados depois de terem caído dum centésimo décimo terceiro andar. Talvez em nome dos corpos ou apenas das imagens impossíveis de resgatar.

Perante tudo isto, alguém terá dito e escrito, de forma um tanto ou quanto melancólica - «é a vida». Não, não é a vida! Infelizmente, é a merda do dinheiro que comanda o poderoso mundo dos humanos (dos frágeis, patéticos, e vulneráveis humanos). Basta pensar, nas poderosas redes de tráfico humano, nas poderosas redes de pedofilia, nas poderosas redes de produção e de comercialização de armamento, nas poderosas redes de tráfico de droga, e de outros estupefacientes, nas poderosas redes de tráfico de órgãos humanos, etc, etc.

Mas o melhor é continuarmos a pensar que com ou sem as regras da dança do dinheiro, um dia tudo isto pode mudar (para melhor, esperemos nós que sim), já que para nosso próprio consolo individual, é bom saber que nenhuma conquista a começar pela conquista do dinheiro nos consegue “impedir de morrer”. Já viram se o dinheiro comprasse a morte? Quem é que não gostaria de comprar a morte? Eu sei, que ela às vezes se compra (mas só quando ela se deixa comprar), porque no limite dos limites não há dinheiro que nos salve, não há morte que se compre, porque a vida, essa, é a única coisa que temos. Por isso, perante a felicidade ou a infelicidade das regras do acaso, perante a felicidade ou a infelicidade de um caso sem regras, a verdade é que não foi por acaso que tudo isto aconteceu. A verdade é que fui salvo por acaso, e por acaso salvei alguém que perante as regras do acaso me salvou também das imprevistas regras do acaso, do acaso que salvou alguém. Mas, ao certo ao certo, não sei se fui salvo por acaso (por acaso fui salvo?) ou se por acaso salvei a vida de alguém. A verdade é que um dia destes terei de voltar a Nova Iorque, porque a vida, essa, continua sempre à beira do desastre.

domingo, 25 de outubro de 2009




ENTRE OS ORGASMOS DE DEUS E OS ORGASMOS DA MÁQUINA!






Eusébio Almeida, instalação, 2008/09

«A arte é uma droga que gera dependência»
(Marcel Duchamp).


Quando falamos do corpo, falamos também, quase sempre, da necessidade ontológica de recorrer não só ao imaginário do perigo, à metáfora da violência e aos fantasmas da provocação, como também ao imaginário dos jogos eróticos, dos rituais afrodisíacos e da violação de todas as proibições, quase como se quiséssemos sentir o prazer da vulnerabilidade de viver «rente aos limites incómodos do paradoxo» (Stig Dagerman).

Do paradoxo de não chegar à intimidade das coisas e das pessoas face à constante virtualização dos corpos e das relações, porque afinal vivemos cada vez mais agarrados ao consolo imediato do computador (ligados e desligados a uma multiplicidade de imagens sem qualquer tipo de espessura humana). É por esta e por outras razões que nos rebolamos em cima do teclado, em cima do ecrã, em cima do rato, quase como se toda «a proibição existisse para ser violada», quase como se todos os limites (aparentemente ilimitados) existissem para ser consumidos, em nome de uma espécie de prazer imediato (paixão/desejo/consolação), apesar da «nossa necessidade de consolo ser impossível de satisfazer», diria ainda Stig Dagerman.

Nesta perspectiva, Dagerman continuaria assim a escrever; «Procuro o que me pode consolar como o caçador persegue a sua própria caça, atirando sem hesitar sempre que algo se mexe na floresta do ecrã. Quase sempre atinjo o vazio, mas de tempos a tempos, não deixa de me tombar aos pés uma presa. Célere, corro a apoderar-me dela, pois sei quão fugaz é o consolo do sopro do vento que mal sobe pela árvore. Debruço-me. Tenho-a! Mas tenho o quê, entre os dedos? (…)». A verdade é que tendo tudo isto, é sempre demasiado escasso aquilo que tenho!

Apesar do sentimento algo ameaçador com que somos confrontados ao ler estas palavras, a verdade é que é esta espécie de «neurose obsessiva» da ordem da desculpabilização (freudiana) que nos impele a desejar intensamente aquilo que nos «falta». Será ainda esta noção de «falta» um dos grandes motores daquilo com que desejamos aquilo que desejamos? Desejamos aquilo que nos falta? Falta-nos aquilo que desejamos? (Tudo isto parece um interminável processo de circularidade tautológica do género da famosa metáfora da pescadinha de rabo na boca).

É por isso que Rosalin Krauss afirma que esta «lógica do desejo», mais do que uma lógica meramente especulativa, agora, é uma lógica da ordem do «real», da «ordem dos corpos», da ordem das «máquinas», tal como parecem ter sido estudadas por Deleuze no seu Anti-Édipo, quando este escreve ao dizer que; «o indivíduo completo desapareceu. Deu lugar a uma série de órgãos – seios, ânus, boca, vagina, pénis – que indiciam todos os desejos imperativos de qualquer sociedade dita moderna ou pós-moderna.

No fundo, é esta «lógica do desejo» (tão antiga quanto o próprio humano) que parece continuar a mobilizar, quer o fetichismo das imagens violentamente sexualizadas do «peep show» contemporâneo (protagonizado pela pintura, pela fotografia, pela publicidade, pelo vídeo, pela televisão, pelo cinema, pela Internet, etc), quer ainda pela obsessão do prazer auto-erótico e exibicionista do homem, ao transformar assim o corpo numa espécie de «valor facilmente «transaccionável».

Tão transaccionável, que consegue levar duzentas pessoas da alta sociedade portuguesa a descer às caves imundas de um hotel (cheio de água e lama estagnada), só para ver uma prostituta nua a roçar-se (em poses diversas) sobre uma pilha de carvão, diria alguém bem informado.